O lugar não era bem uma casa no padrão e nas normas de construção civil, mas no coração de seus moradores era mais que uma casa, era um lar, o lar do verão. Sua construção cheia de falhas, mas muito sólida, e seu formato lembrava um pombal. E assim era chamado carinhosamente por todos. O lugar acalentava o coração de seus moradores de veraneio.
Por seus corredores, escadas e varandas pulsava a alegria das crianças, que soltas brincavam por ali. O pátio sobre a garagem concentrava as brincadeiras, os encontros dos enamorados, e os olhares das mães. Tudo muito fácil para os moradores, bastava um ou dois passos além da porta do apartamento pela varanda coletiva para enxergar o pátio, e vigiar a alegria.
Ao raiar do sol as portas se abriam para somente fechar tarde da noite. Todas as casas mais pareciam uma só, todas voltadas para o coração do prédio. Ninguém podia se esconder nos apartamentos. Todo o prédio se conhecia, e os estranhos ao ninho, em um dia ali já estavam mais de casa que os de casa.
Mãe, manhe, ou tia, eram os nomes mais ouvidos. A cada minuto se escutava um “mãe isso, mãe aquilo”, ou mesmo um “oi tia”. Os manhes vinham seguidos ao choro, antecedidos pelos tombos. Mas a mãe mais próxima era a que socorria os filhos do verão. É…, todas adotavam os filhos do prédio no veraneio. As mães já estavam acostumadas a olhar entre as roupas no varal para ver se o filho era o seu, e ordenar que subisse de preferência sem choro. Afinal eram quedas inofensivas pela presa de não perder a brincadeira.
Entre as brincadeiras mais esperadas a cada verão, era a da temporada de chuvas a mais emocionante. A piscina formada pelas águas da chuva na garagem inferior, com direito a cascata na rampa de acesso, era um atrativo a mais do lugar. As crianças adoravam fugir de seus pais para brincar naquela água, sem se importar com a sujeira, os ratos e os puxões de orelha que lhes esperavam. Nem parecia que o mar estava a poucos metros, e que tinham passado a manhã imersos nele.
Ao anoitecer os pais, que também estavam presentes, juntavam-se na varanda da frente. Ficavam ali jogando conversa fora. As mulheres iam se chegando, aos poucos, com os petiscos e mais cerveja gelada. A cada minuto um grupo de crianças aparecia beliscar a comida para já voltar à correria pelos corredores e escadas.
Soltas a crianças ficavam acordadas até altas horas. Mas quando passava da meia noite os menores iam se chegando, e aconchegando nos colos dos pais. Assim, rapidamente o silêncio reinava na casa do verão. Todavia, não por muito tempo, antes mesmo do sol raiar a leva de “crianças grandes” ia chegando da rua, e tomando conta dos corredores e escadas. As risadas sempre contidas com um “psiu”, alegrava o coração dos pais. E a alegria continuava a pulsar pelas veias daquela grande casa como tinha que ser, durante dia e noite.
( 7º lugar na categoria crônicas do XXV Concurso Internacional de Literatura)



Bate o sino pequenino


