
Título merecido.

Apesar do atraso em receber as fotos, divido com vocês a satisfação de receber o prêmio em casa.
Carinho em Vila Velha
Era uma tarde chuvosa, os campos estavam revivendo após um longo período de seca. Não havia chovido o verão inteiro. O verde da grama timidamente desabrochava. As árvores acolhiam os pássaros sob seus galhos. As variadas formações rochosas abrigavam os animais que ali viviam. Em muitos pontos as rochas formavam cavernas. As flores das paredes das furnas pareciam sorrir para a chuva, como que em agradecimento pelo banho e alimento que recebiam.
Todas as índias estavam reunidas na oca do chefe da Tribo. Auxiliavam o Pajé na lida com o nascimento do primogênito da segunda esposa do chefe Ibiajara, chefe do planalto como seu nome diz e condiz com a posição que ocupa dentro da tribo. Mesmo com a chuva, todos na tribo estavam felizes e celebrando a vida. Comemorar a vida é tradição da tribo, e o nascimento de mais um herdeiro do chefe era uma comemoração especial, era uma benção a toda tribo.
A primeira esposa do chefe Ibiajara, Amanary, que significa água de chuva, havia morrido no parto de seu terceiro filho varão. Fez várias promessas a Tupã para gerar uma menina como era de gosto de seu devotado e amado esposo. Recorreu por várias vezes ao curandeiro em busca de chás e simpatias para alcançar essa graça.
Mas no dia do nascimento de seu terceiro filho, ainda delirando da febre que lhe abatera na hora do parto, prometeu a Tupã que entregaria sua vida em troca de poder realizar o sonho de seu amado. E assim se fez sua vontade, no minuto em que o bebê deu seu primeiro suspiro, Tupã levou Amanary pelas mãos em meio a um grande estrondo que se ouviu nos céus, mas presenteou a tribo com o pequeno Cauã. Um lindo menininho, que foi batizado pelo Pajé com o nome Cauã, por significar gavião – “o que vai enxergar pelas formações rochosas, as furnas e pela lagoa”.
Cauã era um indiozinho lindo, de tez dourada, cabelos lisos bem pretos. Estava sentado à porta da oca de seu pai, postado a proteger todas as mulheres que ali estavam. Ali escutava sua Aracy, como carinhosamente chamava sua mãe de criação por significar mãe do dia. Ela pedia clemência a Tupã e perdão a Ibiajara, caso seu bebê não fosse uma menina. Ela sabia a história da mãe dos seus enteados, mesmo sem tê-la conhecido. Cauã também pedia a Tupã pela sua Aracy, o bebê, por ele, seus irmãos, seu pai e enfim por toda tribo.
A chuva não dava trégua, suas gotas pareciam às lágrimas de Janaína, verdadeiro nome de Aracy, cada vez que as dores lhe vinham. As nuvens no céu não deixavam um risco do lindo azul aparecer para alegrar o dia. O vento havia cessado no início do dia. Os trovões eram mais agudos que os gritos de Janaína, e os relâmpagos riscavam o céu como linhas tracejadas a indicar a oca do chefe Ibiajara. Parecia que todos os elementos indicavam um grande acontecimento, além da mágica da vida, pois das tochas de fogo nas entradas das ocas, somente a da oca do chefe permanecia acessa. Os ventos, comuns nos dias de chuva haviam parado por completo. A terra molhada do lado de fora da oca não se parecia em nada com a terra seca e empoeirada de dentro.
Mas o parto indicava suas dificuldades, iniciou longe da tribo e a ansiedade tomava conta da mamãe novata. Janaína sentiu a primeira dor bem leve, e junto, também, sentiu pingar em seu rosto a primeira gota da chuva, que em minutos se fechou em tempestade. Janaína estava na beira da Lagoa Dourada, com os pés refrescando dentro de suas águas. Ela apreciava os raios do sol beijar as águas cristalinas, e que brilhavam como uma jóia rara. Porém, mesmo com as dores Janaína voltou lentamente à tribo, curtindo a chuva que anunciava uma tempestade. Molhada, suja e feliz, foi levada para sua oca tranqüila e pedia às mulheres que lhe trouxessem pinhão. Parecia faminta ao avançar na travessa de pinhão, só parava de comer quando as contrações lhe tomavam as forças. O pajé achava graça nisso, e repetia a cada avançar de Janaína aos pinhões – “essa semente, referindo-se ao bebê, será forte como os pinheiros”.
Ao final do dia, quando Janaína não agüentava mais as dores, pois sofria há horas com as contrações, que eram ritmadas com os trovões, o bebê resolveu vir ao mundo. Todas as mulheres cantavam bênçãos ao novo bebê. Era uma canção que embalava Janaína como que num transe a acalmá-la. Janaína teve sua filha no último trovão escutado naquele dia, e sua menina chorou junto à última gota de chuva que beijou carinhosamente as bochechas rosadas de Cauã a porta da oca.
Menção Honrosa no Concurso de Contos da Prefeitura de Ponta Grossa.

