Arquivo para Junho, 2009

Viagem

Seu olhar era triste, opaco e sem 1/3 do brilho do pente de brilhantes sobre seu coque a segurar um lindo véu de renda. Sentada na penteadeira de seu quarto, não parecia estar ali, mas permanecia sua beleza refletida pelo espelho. Seus olhos cor de mel, sua boca rosada ao final do fino nariz, seu pescoço longo desnudo, somente com o par de brincos de pérola e brilhantes a combinar com o colar em forma de rede a cobrir seu colo. Havia a muito transpassado para o espelho junto com seu olhar, perdido no nada. O espelho que há muito assistia sua felicidade, desta vez não via o lindo sorriso de Ana pela primeira vez.

Desnuda de todo o aparato daquele casamento indesejado, deixou-se projetar para dentro do espelho, como que em passagem para um mundo onde a felicidade de outrora reinava. A tristeza que seu coração sentia diante do espelho, ali não se sentia. Estaria bloqueado para fora daquele mundo? De sua vida? Um alívio ilusório naquele momento, mas que contentava Ana naqueles minutos que antecediam ao ritual do casamento.

Não acreditava que estava se entregando para um futuro sem vida. Totalmente desprovido de amor, mas enriquecido de acordos outrora realizados por pessoas que não chegou a conhecer. De um lado seu pai que falecera dias após de seu nascimento, do outro, um rei de terras longínquas, pai de seu futuro esposo. Tudo feito para que seu pai garantisse alimentos e moradia para família que estava por deixar na miséria após sua última viagem. Ela era a única mulher entre nove irmãos, todos casados e com situação abastada. Porém, acreditavam todos que o não cumprimento do acordo assinado com sangue por seu pai, levaria todos, os nove, novamente a desgraça.

Sua mãe não queria desagradar à boa sorte. E aquilo parecia um terrível e malfadado conto de fadas. Do espelho podia ver sua mãe à bruxa má, suas cunhadas as aprendizes de bruxa, o príncipe encantado só existia para fazer felizes seus irmãos, e mais nada. Nem um rosto amigo que lhe agradasse a volta. Seu único amigo era o espelho que lhe refugiava neste momento triste. Tudo porque ali não existia infelicidade, má sorte, desesperança, ou qualquer outra coisa que lhe roubasse a alegria do olhar.

Mesmo sem vida no olhar, todos a sua volta apreciavam sua beleza dentro daquela roupa de núpcias. Realmente era lindo, tudo novo e muito branco, enviado por seu noivo abominante. Desde o sapato que usava até a mais simples fita de cabelo foi-lhe enviada. Ana sentia que suas roupas pareciam trapos perto do luxo daquela roupa nupcial. Para ela era uma afronta tudo aquilo, como se não pudesse confeccionar roupas bonitas em tecidos dali mesmo.

Desejava não ter completado seus 13 anos, e não ter se tornado mulher. Pelo pacto, a data do casamento seria nas 3 luas subseqüentes ao seu “dia de mulher”. Esse pacto foi à razão de ter passado o último ano apreensiva, não queria que soubessem que seu “dia de mulher” havia chegado nas 12 luas grandes. Mas há 2 luas, suas mãe viu o sangue em suas roupas, e não pode mais esconder, e também adiar a data que considerava ser a de sua morte.

Adoraria voltar a sorrir com os olhos para o espelho, só para ver a luz dentro deles. Mas ao contrário disso, hoje via escuridão. Um terrível desespero tomou conta dela. Desejava festejar para alegrar sua mãe, mas não, seu coração chorava lágrimas de sangue, como as que assinaram aquele maldito contrato. Seu destino estava transado.

Ainda no espelho a dúvida mostrava o contrário, pois se negando a casar poderia ter um destino melhor para si? Será? Devo fugir? Mudar? Poderia cumprir esse destino em outra vida? Para que adiar? Voltar e enfrentar ainda era a melhor saída. As coisas poderiam mudar, Ana estaria fazendo tempestade em copo d`agua. Quem sabe o monstro abominável de seu futuro esposo, fosse apenas uma fantasia de sua cabeça. Poderia convencê-lo a não ir embora de sua amada terra. Sua beleza serviria para isso? Atingiria tal objetivo? Somente arriscando para saber.

O cair de um pote de porcelana a fez voltar. Saiu do espelho. Aceitou seu destino nessa vida, esperançosa de que haveria mudanças felizes. Assumiu seu compromisso de morte. Realizou o último desejo de seu pai, seus irmãos, e até mesmo de seu esposo abominável. Ana foi resistente até o último suspiro de vida. Fortalecia suas forças refugiando-se no espelho. Mas não foi o suficiente. Meio ano após assumir o compromisso de ouro como desejava o compromisso de sangue de seu pai, Ana faleceu em plena viagem de partida para a longínqua terra de seu esposo. Em seu coração reinava infelicidade, por saber que nunca mais veria o brilho de seu olhar no espelho amigo que teve que deixar para trás. Mudança somente a dela do leito de morte para a última moradia.

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